Ancestralidade,  Mãe Terra,  Treze Luas

Primeira Guardiã, Aquela que fala com as Relações – Clã da Tartaruga

Conta-se que o espírito encarnou no corpo de mulher ainda quando as grandes montanhas de gelo não ocupavam extensa região do planeta. A ilha da tartaruga, com sua mata exuberantemente verde crescia em vida e diversidade. Aquela que fala com as relações, manifestava a consciência do primeiro crânio de cristal nas selvagens terras ameríndias. Em solo repleto de vida, fertilizado por crânios e ossos de muitos outros seres que viveram tempos antes dela, nutriam as raízes das altas árvores que a rodeavam. Aquela que fala com as relações, levanta os braços em direção a luz do Avô Sol “Que bênção estar viva!”

Percebeu movimentação na densa floresta ao seu redor. Então, a mulher diminui a respiração e conecta-se com a potente trança de raízes sob seus pés. Se mantém silenciosa, permanecendo presente em seu corpo até estar em estado neutro percebendo seu ritmo interno. Aquela que fala com as relações presenciou a densa floresta sem interferir nos seres naturais, aguarda entregue ao tempo presente.

Não passou muito tempo até que uma pequena e ruiva raposa surgisse próxima a margem do riacho sinuoso. A raposa tomou um curto gole das fluidas águas e retornou para dentro da mata. Se manteve a espreita entre as folhagens, espiou a mulher e o local assegurando-se que sua curiosidade não a expusesse em vulnerabilidade. Subitamente, a raposa encontra-se paralisada, olhando no profundo olhar de olhos que nunca antes havia visto.

“Saudações, irmão raposa” Aquela que falas com as relações disse gentilmente, “Acredito que não o assustei”

“Eu pensei que era o melhor em camuflagem. Você deveria ser uma raposa, não uma duas-pernas! Como me percebeu? Não precisa responder, também consigo perceber a camuflagem alheia.” Disse a raposa

“Querida raposa, saiba que caminhei por muitos Sóis e Luas aprendendo todas as minhas relações. É importante eu conhecer todas as formas das crianças da terra, pois sou a Mãe Natureza e devo aprender as necessidade de toda criatura viva, a família das plantas, o povo pedra, assim posso servir de instrumento para a família Terra”

A raposa observou Aquela que fala com as relações e percebeu que transmitia a verdade. Refletiu como havia sido escolhida pela bela duas-pernas, mas teve medo de perguntar. Então, foi pega de surpresa por uma bela risada que ecoou mata adentro em harmoniosa melodia.

“Querida raposa,” disse a mulher, “tu és mestre na camuflagem, porém esqueceu-se de camuflar seus pensamentos. Pois saiba que aprendi a verdade contida nos corações e mentes de toda criatura viva. Não precisa ter medo de me perguntar coisa alguma. Aprendi com as Perdizes como adentrar na sagrada espiral rítmica para estar em harmonia com todas as minhas crianças. E no aprendizado da verdade dos ritmos, me tornei capaz de unir pensamentos e corações, logo não há separação entre nós.”

Neste momento, a Centopéia surge de dentro do tronco caído na relva durante a última grande chuva. Sua multidão de pernas move-se ritmicamente com seu próprio tempo. Então ela caminhou até outro tronco tentando se posicionar em frente Aquela que fala com as relações. Arqueou suas costas e parou de caminhar, ergueu-se como uma folha seca no outono e sussurrou “minha deusa, eu pensei ter ouvido sua doce risada, mãe. Reconheceria esta melodia em qualquer lugar. Que surpresa agradável!”

A raposa olhou para a centopeia imaginando como elas se conheciam. Então decidiu sentar-se na pedra para banhar-se de sol. Parecia que esta reunião se estenderia por longo tempo, e sentia frio em suas patas enquanto estava em pé na água escutando Aquela que fala com as relações.

“Querida Centopeia, se passaram muitas Luas desde que conversamos, te agradeço por ensinar-me como encontrar meu centro e minha forma de caminhar. O longo trajeto para o mar e para as planícies levaram muitos dias e noites, mas meus braços e pernas trabalharam em harmonia. Eu me senti maravilhada com todas as partes do meu corpo cooperando ritmicamente entre si. Afinal, nós duas podemos nos lembrar do tempo em que eu era uma bagunça de braços e pernas, tropeçando pelo caminho, e me prendendo em cada arbusto, não podemos?” Disse Aquela que fala com as Relações.

“Bem, estou feliz em reencontrá-la, tão animada por vê-la que rolei rapidamente por este tronco. Veja, por conta da excitação, eu também me esqueci de minha medicina. Nesta minha idade avançada, ainda crescem novas pernas e devo ensiná-las como trabalhar em uníssono com as antigas, sempre e sempre.” disse a centopéia.

Aquela que fala com as relações abriu lindo sorriso e disse, “Certamente entendo o que sente, Muitas Pernas, ajustar os ritmos das estações também tem sido uma contínua tarefa. A Mãe Terra segue transformando seu caminho na nação do céu, as Luas Verdes do germinar estão cada vez mais curtas, enquanto as Luas Brancas estão cada vez mais longas, com neve e gelo.”

A raposa falou e perguntou, “Esse é o motivo pelo qual as criaturas vivas dos estepes estão vindo em nossa direção?”

A centopéia e Aquela que fala com as relações concordaram. “Veja raposa, a Mãe Terra me designou a tarefa de aprender sobre as necessidades de todas as tribos da Terra, desta forma, consigo ajudá-la a encontrar a trilha correta pela Nação do Céu. Eventualmente, haverá quatro estações e quatro ventos da mudança que nos ajudarão a encontrar o ritmo da harmonia. As três Luas Brancas, nos trazem o tempo do descanso, quando os Seres Gelo irão cobrir o solo. Então seguirá as Luas Verdes, por três ciclos, germinado vida nova para o Povo Planta. Depois as três Luas Amarelas trazem o tempo de amadurecimento e completude. As Luas Vermelhas virão em seguida, permitindo o tempo da colheita. Enfim, a décima terceira lua, Lua Azul, ensina todos as crianças da Terra a encontrar sua habilidade natural de mudança e transformação.”

A centopéia sorriu, “É algo belo de vivenciar, Mãe, e todos nós iremos agradecer este trabalho que realiza para nós.”

Aquela que fala com as relações sente-se preenchida por gratidão ao perceber que está aprendendo a verdade de como suprir as necessidades de todas as crianças da Terra, e como compreender suas medicinas. A vida é plena, e, a cada novo dia, há a oportunidade para aprender novas lições, novas verdades para explorar, e novos ritmos para agregar ao todo. A mulher estava reconhecendo que todas as coisas vivas, cada ser vivo era seu parente, enquanto ela encontrava o ritmo de cada relação e se atentava ao tambor interno de seus corações. Sua mente fluiu para a memória do momento que ela aprendeu pela primeira vez essa lição, enquanto a luz do grande Avô Sol envia raios alaranjados através de seus olhos fechados, deslocou-se para uma antiga Lua e viu o Cisne planando por um lago entre as altas montanhas.

Contos Ancestrais e Medicinas da Alma
Conselho das Anciãs das 13 Luas
Primeira Guardiã, aquela que fala com as relações

Continua….

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