Expressões Ancestrais

Os ritmos compassados do coração, a frequência sonora do vento que sopra em nossos ouvidos, ou mesmo o canto dos pássaros num dia de outono. As manifestações sonoras e vibrações melódicas cantam a experiência de viver, são sons que nos despertam para a dimensão deste momento presente. A natureza viva. Sons. Aromas. Texturas. Cores. O rio fluindo mata adentro, co-criando seu espaço, os caminhos que segue junto à natureza, com sapos que cantam, pássaros que se alimentam e tempestades que transbordam seu fluxo em abundância e nutrição, que segue rumo ao mar de rochas e ondas a quebrar.

Colhi na areia um belo tesouro, desses espiralados com fibras e textura, e nesta bela concha, que mesmo distante de seu habitat, ainda ouço o fluir das ondas quando aproximo o ouvido de sua cavidade, a memória viva de seu crescimento no mar, junto às ondas, acompanhando o pulso das correntes marítimas em seu desabrochar.

Seguindo o canto do sabiá, fui ao encontro cultural de Didgeridoo em Ubatuba. Uma roda íntima de seres conscientes, desses que honram os povos originários e reconhecem em suas práticas a verdade deste instante.

Som penetrante, o instrumento cria atmosfera em que a mente, as células do corpo e pulsação cardíaca se harmonizam em ressonância à frequência emitida pelo Didgeridoo. Um instrumento aborígene, dos povos originários da Austrália, que consiste em um tubo oco. Pode ser feito de bambo ou esculpido do galho de uma árvore, sua produção segue a consciência “slow” de sua própria ressonância, em que a presença é a principal ferramenta. Quando esculpido na madeira, o nascimento deste instrumento segue uma gestação de aproximadamente 6 meses, de

co-fiança” entre a natureza e o humano que o produz.

Vivenciar o encontro de tocadores de didgeridoo me trouxe sensações plenas e a certeza de que a natureza está em mim. Presenciar 5 didges sendo tocados simultaneamente, me fez compreender a sacralidade do instrumento, viver o presente instante que ressoa. A base da técnica para praticar o didgeridoo é a respiração circular, que consiste em sustentar a coluna de ar sem interrupções entre a expiração e a inspiração, mantendo a respiração contínua ao emitir o som harmônico do instrumento. Não é das práticas mais simples, é necessário tempo e entrega para desenvolver esta habilidade.

Iniciou-se então, uma dança sonora, com flautas, tambores ritmados e cantos. Uma imersão em valores e relações de culturas antigas, de comum-união. Um ambiente de escuta e respeito mútuo, integração entre os humanos, as árvores, a vida.

Neste enredo social, de crise planetária, é necessário movimentos culturais de livre expressão criativa, que possibilitem os sujeitos a liberdade respeitosa com relação à vida. Uma vivência da terra, um convite a se libertar de crenças limitantes e encontrar sua identidade própria.

A onda é o fenômeno primordial que deu origem ao mundo”

Goethe.

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